Thermal Baths Vals: Pedra como Argumento
Peter Zumthor construiu em Vals um edifício que é, literalmente, montanha escavada. O quartzito local não é revestimento — é estrutura, atmosfera e posicionamento ético. Ensaio sobre materialidade radical.
As Termas de Vals, concluídas em 1996, são frequentemente reduzidas a fotos de piscinas com luz zenital. A fotogenia do projeto é um problema: ela oculta o argumento. O argumento é que materialidade não é acabamento — é posição.
Zumthor não 'revestiu' o edifício de pedra. Ele construiu o edifício de pedra. As paredes são blocos maciços de quartzito empilhados em camadas de 15 alturas diferentes, sem armadura aparente, com juntas de 3 milímetros. A estrutura é a superfície. A superfície é o espaço. Não há intermediários.
O quartzito de Vals: origem e propriedades
O quartzito usado nas Termas vem da pedreira de Vals, a menos de 3 quilômetros do canteiro de obras. É uma rocha metamórfica, de cor cinza-esverdeada, com veios paralelos resultantes da pressão geológica. Tem dureza 7 na escala Mohs (mais duro que granito comum), absorção de água quase nula e resistência à compressão acima de 200 MPa.
Essas propriedades são essenciais para o projeto: a pedra está em contato permanente com água termal a 32°C e vapor. Um material poroso degradaria em décadas. O quartzito de Vals, após 30 anos de operação, está intacto — com pátina de uso que melhora a textura em vez de degradá-la.
O assentamento como projeto
Cada bloco foi cortado em uma das 15 alturas padronizadas (variando de 31mm a 152mm). As camadas são intercaladas em sequência calculada para que nenhuma junta vertical se alinhe com a de cima ou de baixo. O efeito é uma textura estratificada que evoca a geologia natural das montanhas ao redor — porque literalmente vem delas.
Atmosfera: o projeto que não se vê
Zumthor usa o termo 'atmosfera' — não como metáfora, mas como objetivo de projeto. Nas Termas, a atmosfera é construída por três variáveis controladas: luz (zenital, rasante, refletida na água), temperatura (transição entre piscinas quentes e frias) e som (reverberação da água na pedra).
Nenhuma dessas variáveis depende de tecnologia sofisticada. Dependem de geometria precisa: a altura das paredes, o ângulo das aberturas, a distância entre superfícies refletoras. É física básica aplicada com rigor obsessivo.
Atmosfera não é um conceito vago. É o resultado mensurável de decisões geométricas e materiais precisas.
A ética da origem
Usar pedra local quando existe pedra local disponível não é conservadorismo — é ética projetual. Zumthor poderia ter usado mármore de Carrara, granito da Noruega ou qualquer material importado. A decisão de usar o que a montanha já oferece é uma recusa explícita da lógica global de materiais, onde tudo vem de qualquer lugar e nada pertence a lugar nenhum.
No contexto brasileiro, essa posição tem tradução imediata: quantos projetos em São Paulo usam pedra que existe a 200 km do canteiro? Quantos preferem importar porcelanato da Espanha? A pergunta não é retórica — é econômica, logística e ética.